Conto | O doce amargo da despedida


7f263b81ebb602811cce14e334d212cb.jpg

Despedida.

Eu odiava com todas as minhas forças essa sensação de estar a um passo de perder alguém que amo.

Aquele era o motivo pelo qual eu não o acompanhei até o aeroporto.

Que diferença teria se eu o visse pela última vez aqui – onde passamos o nosso único ano juntos, o lugar que fora nosso lar, nosso ninho de amor – ou lá, onde a dor de observá-lo caminhar para longe de mim seria insuportável; se eu chorasse na frente de uma multidão de pessoas que poderiam, ou não, entender a minha dor, ou exatamente onde eu estava, agarrada à sua camiseta favorita – a do seu time de basquete do coração – inalando seu perfume ainda impregnado na peça; se eu me culpasse por me envolver tão rapidamente quando sabia que tinha data marcada para terminar, ou fingisse que era forte e acreditasse que, se aconteceu, é porque estávamos destinados um ao outro, mesmo que por um curto espaço de tempo?

Nenhuma.

Porque a minha dor ainda seria a mesma.

A minha vida havia mudado de cabeça para baixo quando nos conhecemos.

Eu costumava ser uma pessoa solitária na maior parte do tempo. Menos quando estava com ele.

Ele me fazia menos só, menos concentrada única e exclusivamente nos estudos, me fazia querer sair, viajar, conhecer pessoas e lugares novos. Ele me fez ver a vida e acordar para ela.

E agora as coisas não seriam mais as mesmas.

Quando, largada em minha cama, cerca de meia hora depois de ele ter tocado com sua boca os meus lábios pela última vez, eu me dou conta disso, levanto-me num pulo. Eu não deveria me arrepender de nada.

Não me importo nem um pouco de ainda estar usando calça de moletom e uma camiseta sem sutiã por baixo. Apenas puxei um casaco qualquer de dentro do armário e meu molho de chaves, gritando para o monte de pelo deitado no sofá que ele não deveria fazer xixi na sala, e saí do fresquinho do meu apartamento como uma doida.

Às vezes, temos segundas chances na vida. Mas precisamos merecê-las. E, até aquele momento, eu não havia feito nada que me desse um passo livre diretamente para o que eu queria. O gênio da lâmpada não apareceria se eu não a esfregasse primeiro. E eu não teria meus três desejos.

Não tenho certeza sobre qual velocidade eu estava com o carro, nem se havia passado por algum radar. Confesso: havia sido uma irresponsável naquele momento, dirigindo inconsequentemente até o aeroporto, sem me importar com mais nada, nem comigo mesma. Era minha única chance.

Ao, finalmente, adentrar o aeroporto, procurei desesperadamente por um relógio. Na pressa, meu celular havia ficado sei lá onde no apartamento e eu precisava saber se havia chegado a tempo. Quase suspirei aliviada quando constatei que ainda me sobraram alguns minutos, mas eu ainda precisava encontra-lo na bagunça que era aquele aeroporto. Detestei-me por ter esquecido o celular, assim eu poderia apenas enviar uma mensagem.

Comprei uma passagem qualquer, o dinheiro mais bem gasto da minha vida, apenas para que tivesse acesso à área de embarque e pudesse procurar seu portão de embarque, torcendo – rezando – para que ele não já estivesse dentro do avião.

Não fora difícil avistar seus cachinhos no meio das pessoas, mesmo de longe, a segunda pessoa na fila de embarque. Ele era alto, a pessoa mais alta que eu já havia conhecido, uma de suas características que eu não tinha muita certeza se gostava ou não. Era bom em alguns momentos, ruim em outros. Nesse momento, aquilo era excepcionalmente bom.

Eu odiava com todas as minhas forças a sua pontualidade excessiva de britânico, mas hoje, só hoje, me permiti apreciar isso nele, pois se ele tivesse saído com o tempo contado, muito provavelmente a minha epifania teria se dado tarde demais.

Eu gritei seu nome.

Alto.

—Charlie!

E comecei a correr. E correr.

Ignorei os olhares curiosos das pessoas ao meu redor, e não pude evitar sorrir ao vê-lo sorrindo para mim.

Ele abandonou a fila, dando uma leve corrida de encontro a mim, na metade do caminho, pegando-me em seus braços e imediatamente colando sua boca na minha.

Aquele não era o nosso beijo comum, era mais necessitado, um pouco afoito demais, talvez até um pouco desesperado, mas, droga, era perfeito para a situação.

Quando, enfim, nossos lábios se desgrudaram, foi a vez de nossas testas se unirem, enquanto sua mão apertava minha cintura junto à sua, unindo nossos corpos o máximo que era humanamente possível. Seu coração batia no mesmo compasso descompassado que o meu, o nosso ritmo perfeito, o que representava o encontro de nossas almas.

E só ele conseguiu fazer meu coração bater mais forte.

—Eu acabei de te ligar. – ele disse, seus olhos fixos nos meus. – Achei que não viesse.

—Você estava me esperando?

—Sempre, Becca. Sempre.

—Você sabia... – que eu perceberia quão infantil estava sendo?, completei mentalmente.

—Eu esperava que sim.

Ele pegou uma de minhas mãos nas suas, e puxou uma caixinha do bolso.

Meu coração estava batendo muito rapidamente para parar, mas foi como se todo o resto estivesse em câmera lenta, menos nós dois, nossos corações e sua mão, abrindo a caixinha e revelando um anel.

Prateado, preso em uma correntinha, a qual ele abriu o fecho e colocou em meu pescoço, sem precisar que eu me virasse para isso.

—Eu estou indo só porque não posso ficar nesse momento. Quando eu voltar, esse anel passa do se pescoço pro seu dedo. Acredita em mim?

Apenas assenti uma vez, incapaz de proferir uma única palavra.

—Eu amo você.

—Eu também amo você.

—Feliz Dia dos Namorados. – sussurrou em meu ouvido com seu português que mais parecia com o de Portugal do que o do Brasil e, com um último beijo na boca, lentamente soltou minha mão, caminhando de volta para a fila.

Meu coração se despedaçou.

Mas eu só precisava acreditar que o tempo seria meu amigo. E que logo ele estaria de volta.

Copyright © Letícia Kartalian, 2015. Todos os Direitos Reservados.

Escrito_por_Letícia_Kartalian.png

Posts Relacionados

Ver tudo
Letícia Kartalian - foto 2021